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Despedidas...


Lembro do dia em que minha gatinha, a Gordinha, ficou doente. Meu coração ficou apertado em cogitar a possibilidade de sua partida. A angustia e o medo, o nó na garganta eram constantes.


Ela já idosa, mas sempre muito alegre, disponível e amorosa; foi um lindo presente inesperado que a vida me trouxe, quando a minha cachorrinha, Bia, havia partido, após quase 18 anos de muito amor e convívio.


Um veterinário muito especial, Dr. Haroldo, cuidou da Gordinha e ela melhorou após uma internação breve.

Voltou para casa com a mesma alegria de sempre, mas com algumas ressalvas.

Eu teria que dar soro para ela 2 por semana, por conta dos rins dela, que já não funcionavam tão bem. E sem o soro, ela morreria.

Ela ficava triste quando tinha que tomar e eu também, por precisar colocar a agulha e mantê-la, quietinha. Foram semanas difíceis para as duas, mas seguíamos juntas.

Quase 6 meses se passaram até que ela tivesse uma recaída e precisasse novamente de uma internação, mas Dr. Haroldo havia voltado para sua cidade e seriam outros profissionais com ela. Desta vez, eu sentia que seria diferente e por mais que eu pedisse a Deus que ela não sofresse, eu lá no fundo, também pedia novamente, um tempo a mais com ela.


Recebi a ligação da veterinária às 22h e ela disse que estava tudo bem. Às 23:30 do dia 31 de maio de 2023, eu comecei a enviar energia Reiki para ela. O que mais sintonizava era o chakra cardíaco. A mentalização de uma linda luz verde, a mentalização de que estava com ela no amor, no pensamento, na energia... eu sentia nossa conexão mesmo não podendo estar na UTI com ela.


Adormeci enquanto fazia a mentalização e o telefone tocou às 23:53. Ela havia partido às 23:50, com uma parada cardíaca. Com apenas algumas horas de internação.


Eu agradeci a Deus por ter sido uma morte rápida e sem sofrimento para ela, mas senti a dor da despedida. Em saber que não mais teria a minha Gordinha nos braços e que realmente aquela longa troca de olhares quando a deixei, foi a nossa despedida não verbal .


Depois da perda, a mente começa a entrar em pensamentos que muitas vezes são inúteis e que só ampliam o nosso sofrimento, a nossa angústia e até mesmo a nossa raiva.


Comecei a questionar o que havia sido feito na clínica. Solicitei todas as documentações e exames, falei com outros veterinários, pesquisei informações na literatura e coloquei energia neste processo, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Nenhuma resposta a traria de volta para mim. Ela já havia partido...


A mente quer explicações a todo tempo. Ela quer justificativas e principalmente um culpado. É como se pudéssemos descontar nossa tristeza e revolta em alguém, quando encontramos um culpado.


"Será que se o Dr. Haroldo estivesse aqui, seria diferente?" - eu pensava.


É como se a morte não pudesse ser uma explicação por si só.

Aquele papo de que ninguém morre antes da hora não é tão reconfortante neste momento.

Precisamos de mais...


Chegamos a trazer esta culpa para nós e aí iniciamos um processo muito doloroso de autodestruição. O eu que poderia ter feito para impedir isso, ou por qual motivo não agi diferente? Onde errei? - Mais uma vez, uma sequência de tiros que não mudariam o rumo das coisas em nenhuma hipótese.


E aí chega a vez de Deus levar a bronca. Poxa, você aí todo poderoso, podendo fazer tudo, não fez nada. Mesmo eu aqui tentando viver de forma correta, o que te custava deixar ela comigo mais um pouco?

E aí começamos a pensar em todas as perdas que já tivemos e qual o sentido dessa vida... Vale a pena mesmo? Olha que sofrimento terrível! - E ainda virão muitos outros.

Quanto mais pessoas eu conhecer, quanto maior for a minha família, maior será a quantidade de perdas e dor que vou sentir. - Que insano isso!


Muitas vezes este é o caminho que a nossa mente trilha quando estamos com o pensamento direcionado exclusivamente para a perda e quando não estamos conectados com o nosso sentimento de gratidão e de fé.


É nesta hora que percebi o quanto eu estava sendo injusta e ingrata.

A morte acontece uma única vez, mas a vida segue dia após dia.

Foram milhões de minutos de muito amor, de muita alegria, de muita troca e aprendizado, que sem dúvida, foram muito especiais e que eu não abriria mão de ter vivido por nada neste mundo.


Lembro que quando a Bia se foi, a minha psicanalista disse: Você preferiria nunca ter conhecido a Bia para evitar passar pela dor que você está sentindo agora?


JAMAIS! Nem imagino a vida sem todos estes anos com ela. Ela foi maravilhosa pra mim. Assim como pessoas incríveis que também precisei me despedir e que foi muito difícil.


Neste momento eu nunca mais lamentei uma partida. Eu só agradeci pelo tempo que me foi dada a honra de compartilhar a minha vida com seres tão especiais, que precisaram seguir caminhos diferentes do meu.


Já pensou se Deus atendesse a cada vez que pedíssemos para deixar mais um pouquinho? Ninguém partiria. A gente sempre quer um tempo a mais com quem a gente ama. Não tem jeito. Então, em algum momento teremos SIM, que nos despedir de tudo e todos a nossa volta e até de nós mesmos quando chegar a nossa hora. Não sejamos mimados...


Eu posso olhar para a vida como uma sequência de perdas e despedidas, ou olhar para a vida como uma grande dádiva de experiências incríveis, que possuem um tempo determinado para serem apreciadas e desfrutadas.

Sabe uma criança que está descobrindo o mundo e acha tudo encantador? Que está ali vivendo o momento presente com toda entrega e alegria? Assim deveríamos levar nossos dias... apreciando tudo o que ainda temos, enquanto temos. Abraçando e curtindo cada minuto que temos com as vidas que estão aqui presentes, ao invés de lamentar as que já tivemos oportunidade de curtir e que agora precisaram seguir.


Tudo bem sentir saudade. Mas com sabedoria!


Temos que aprender a valorizar o tempo que temos e sermos gratos pelo tempo que nos foi permitido compartilhar nossa vida com quem amamos. Compartilhar nosso afeto o máximo possível, pois em algum dia, em um horário já definido, poderá ser a última oportunidade.

Saber que você amou tudo o que podia, que abraçou, beijou, honrou e aproveitou cada momento, sem dúvida te trará muito mais gratidão do que lamentação. Então valorize!


A culpa, o remorso, o arrependimento, são caixas muito pesadas e precisamos abrí-las para esvaziá-las. Quando as pessoas ainda estão aqui é um pouquinho mais fácil. Depois que elas partem, temos que resolver tudo isso internamente, sem a chance de uma conversa franca e honesta. Mas sempre é possível nos perdoarmos e precisamos fazer isso.


Ninguém merece deixar de amar, deixar de sentir o amor, deixar de construir experiências tão Divinas, por medo da dor que inevitavelmente sentiremos quando chegar o momento da partida. É preciso coragem para amar e fé para compreender o quão maravilhosa essa vida é. O quão generoso Deus é conosco, nos dando tantas alegrias, tantas oportunidades e possibilidades junto a vidas tão especiais.


Precisamos aprender a pedir diferente para não nos frustrarmos injustamente com Deus.

Quando a Gordinha adoeceu e eu senti que seria nossa última troca de olhar, eu pedi para Deus... Já que ela precisa ir agora, que ela vá sem sofrimento. Eu só te peço isso. E que o Senhor esteja comigo para lidar com a saudade da melhor forma possível.


E ele prontamente atendeu o meu pedido.

Ela descansou sem sofrimento e recebendo muito amor.


Não devemos tentar barganhar o inevitável. Mas aceitar com gratidão este processo natural que virá e não sabemos quando.

Quando eventualmente algum pensamento teimoso chega até a minha mente, eu decido ser muito maior que ele e o transformo. Eu lembro de cada momento de alegria que eu tive com a Gordinha, ao invés de lembrar do único dia em que ela se foi fisicamente. E é assim, que eu a levo comigo, ainda presente, todos os dias, com o melhor de nós.


Evite reviver a morte em sua mente. Reviva as alegrias!

E eu quero deixar aqui uma dica muito especial para você que perdeu alguém especial.

Quando a saudade bater de um jeito mais forte e seu corpo desejar um sentimento físico, como um abraço ou a imagem da pessoa, saiba que existe uma forma.


O nosso cérebro não sabe o que é verdade e o que é mentira. E por isso, podemos usar esta lacuna para acalmar nosso coração.


No meu caso, que é um Gatinho, eu utilizo um bichinho de pelúcia. Mas caso seja uma pessoa, pegue algo um pouco maior, como um travesseiro grande ou um edredon grande e fofinho.


Olhe a foto da vida em questão, feche os olhos e mantenha essa imagem clara em sua mente. Mantenha o foco nesta imagem e abrace com todo seu amor a peça que você separou. Torne isso verdadeiro dentro de você.


Eu sei que parece bobagem e uma loucura, mas tente!

Se você conseguir visualizar, e transpor o seu amor neste gesto, isso acalmará um pouco a sua necessidade do corpo físico!


Precisamos entender que o corpo tem necessidades de sentir, ver, ouvir... A alma não.

A alma se conecta de uma forma diferente. Somente pelo amor!

Mas nós ainda temos um corpo e boa parte da saudade mais dolorosa que sentimos é por conta deste desejo do corpo.


É como aquela vontade louca de comer um doce. O corpo pede e muitas vezes não conseguimos controlar! É exatamente igual.


Então, use a sua mente para tranquilizar o seu corpo e você vai conseguir se sentir um pouquinho melhor a cada dia.


Eu dormia todos os dias com a Gordinha. Ela sempre deitava no meu colo e dormíamos abraçadas. Confesso que dormir com a pelúcia do tamanho dela, me ajudou e ainda me ajuda muito, a acalmar essa falta física. Porque o amor eu sei que está intacto. Está exatamente como sempre foi e isso nada e nem ninguém poderá modificar. Ele transcende o corpo físico e este laço é inquebrável.


Eu desejo que você possa olhar para as despedidas com um olhar mais amplo e que você possa transformar a sua lamentação em gratidão. Que você respeite e viva seu período de luto, mas não se demore muito nele, para não deixar de apreciar as vidas que ainda estão aqui com você.

De todo meu coração, eu desejo isso para você!



Por: Cintia Natoli

Fisioterapeuta Naturopata

Saúde Integrativa | Estilo de Vida | Gerontologia



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