O que você tem sustentado que já devia ter deixado ir?
- Cintia Natoli
- 18 de nov.
- 3 min de leitura

Há coisas que a gente segura com força sem perceber o quanto elas pesam.
Pessoas, situações, hábitos, versões antigas de quem fomos. Tudo isso ocupa espaço dentro e fora de nós.
Muitas vezes, sustentamos o que já devia ter partido simplesmente porque não sabemos quem seríamos sem aquilo. Não conseguimos nos imaginar sem aquela situação, por mais desconfortável que ela seja. Mesmo infelizes, seguimos apegados.
Desapegar nem sempre é sobre coragem — às vezes é sobre maturidade. É reconhecer que alguns ciclos cumprem seu papel e que insistir neles é negar o próprio fluxo da vida.
Soltar dói. O vazio que fica depois de abrir a mão pode assustar. E, ainda assim, é nesse espaço que o novo começa a se formar.
Não há crescimento real sem encerramentos. A natureza ensina isso o tempo todo: as folhas caem antes que nasçam outras, o dia se despede para que a noite chegue, o inverno recolhe o que a primavera vai florescer.
A vida pede o mesmo de nós — que saibamos deixar ir o que já não vibra na mesma frequência, o que já não alimenta, o que já não cabe na nossa versão atual.
Mas há um motivo silencioso que nos faz resistir: o medo da ausência, o medo do novo.
Tememos o vazio porque associamos ele à perda, quando, na verdade, o vazio é só um intervalo entre o que fomos e o que ainda vamos ser. É no vazio que tudo pode acontecer.
É nesse espaço que a alma respira e reorganiza o que vem depois.
Quando você solta o que não serve, não está perdendo, está apenas abrindo espaço para algo mais alinhado ao que se tornou.
Muitas vezes, a vida já deu sinais de que algo acabou, mas a mente insiste em racionalizar. Quer entender, convencer, explicar, prever o que virá a seguir. Só que o movimento de libertar não vem da razão, vem de um lugar mais profundo, onde o sentir é mais forte do que o pensar. É ali que nasce a coragem silenciosa de simplesmente aceitar o fim, sem precisar entender tudo. É abrir mão do controle para dar espaço à intuição.
Quando esse momento chega, algo dentro se realinha. O corpo relaxa, a energia volta a circular, a leveza se instala. Sabemos que a decisão é certa, quando mesmo com o frio na barriga e a sensação da despedida, vem o alívio. O alívio é a certeza da alma.
Deixar ir também é um ato de amor — amor por si, pela vida e por tudo o que já foi e não precisa mais ser.
Continuar segurando o que terminou é um jeito de permanecer no passado. E o passado, por mais bonito que tenha sido, não pode sustentar o presente.
Há momentos em que seguir em frente não é uma escolha, é uma necessidade para continuar existindo de verdade, sem se submeter a uma vida morna ou conformada.
Então, talvez a pergunta não seja por que deixar ir, mas por que ainda segurar.
Enquanto insistimos em carregar o que já não faz sentido, impedimos que a vida se renove. E tudo o que fica estagnado, um dia adoece.
Soltar é confiar. É admitir que o que foi já cumpriu seu propósito. E que, ao deixar ir, abrimos espaço para aquilo que realmente está pronto para chegar, com gratidão pelo que foi e abertura para tudo o que virá.
Por: Cintia Natoli
Fisioterapeuta Clínica e Integrativa
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