Você se trata como trataria alguém que ama?
- Cintia Natoli
- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

A forma como nos tratamos revela muito mais do que imaginamos.
Costumamos ser generosos com os outros, compreensivos, pacientes, acolhedores. Mas, quando o assunto somos nós mesmos, a tom se torna mais duro, as exigências mais altas e a tolerância mais curta.
O que no outro chamamos de “erro” ou “momento difícil”, em nós, rotulamos como “fracasso”.
Vivemos em uma cultura que confunde amor-próprio com vaidade e autoestima com egocentrismo. Mas amar a si mesmo não é um ato performático, é um exercício complexo.
Muitas vezes, amar-se significa olhar para o que dói, sem disfarçar. Significa reconhecer o cansaço, aceitar os limites, admitir que não dá conta de tudo — e mesmo assim, continuar se tratando com gentileza.
O amor-próprio maduro não tem nada de romântico. É lúcido, coerente e saudável.
Ele é cotidiano, silencioso e, às vezes, cansativo. Está nas pequenas escolhas: dormir mais cedo, dizer “não” quando o corpo pede pausa, não insistir em quem não retribui, não se violentar para caber em expectativas.
Amar-se é cuidar do que sustenta, e não do que consome.
Mas há um ponto cego nesse processo: muitas pessoas não sabem como se tratar com amor porque nunca aprenderam como fazer isso. Aprenderam a cumprir o protocolo, mas não a gerenciar os processos de forma leve e gentil.
Crescemos ouvindo sobre disciplina, foco, resultado, sobre ser responsável, que se cobrar é o caminho para o sucesso e que pensar em si pode parecer um ato egoísta. Principalmente quando "alguém" não é atendido neste processo.
A gente até tenta se amar, mas com o mesmo olhar crítico que aprendeu a usar para se julgar e com a dura régua da comparação.
E assim, o autocuidado vira um item no final da lista, e não uma prioridade natural, como deveria ser.
Amar-se verdadeiramente é um aprendizado constante. É reaprender a ser gentil depois de anos de autocrítica. É desacelerar o impulso de se comparar, de exigir perfeição, de achar que só é digno de descanso depois de chegar a exaustão ou ao adoecimento.
Amar-se é não precisar fazer tanto para provar valor. É compreender que o valor existe antes da performance.
E quanto mais a gente pratica esse olhar, mais ele muda a frequência das escolhas. Começamos a aceitar o que é leve, a permitir pausas, a selecionar situações que nutrem.
O amor-próprio amadurecido não cria muros, cria limites saudáveis. Ele não isola, mas ensina a priorizar.
Quando o cuidado deixa de ser obrigação e vira respeito, tudo ao redor se reorganiza.
A vida passa a responder na mesma vibração que emanamos: quanto mais generosidade existe na forma como nos tratamos, mais coerência chega de volta. É um processo silencioso, mas profundo. E, aos poucos, tudo o que é desamor, inclusive aquele que vem de nós mesmos, perde força.
O verdadeiro amor-próprio não é sobre gostar de tudo em nós, e sim sobre não abandonar nenhuma parte.
É olhar para o que ainda não está curado e dizer: “mesmo assim, eu fico”. É oferecer a si mesmo a presença que tanto ofereceu aos outros — sem cobrança, sem pressa, sem precisar de um motivo para merecer. Entender que você merece apesar de qualquer coisa.
Talvez esse seja o ponto mais libertador: perceber que o amor que buscamos não é algo que vem de fora, mas algo que precisa ser cultivado dentro. Isso exige prática, constância e, principalmente, escolha. Escolher se acolher, mesmo quando tudo em volta parece exigir o contrário.
Então pare e se pergunte com honestidade:
Você se trata como trataria alguém que ama? Com a mesma tolerância e acolhimento?
Porque é nesse reflexo que você perceberá seu nível de amor próprio e autocuidado.
Por: Cintia Natoli
Fisioterapeuta Clínica e Integrativa
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